13 de fevereiro de 2014

Persona

O filme Persona de Ingmar Bergman fala da tensão humana entre a virtude e o vício, entre a transcendência e a matéria. Logo ao chegarem na ilha Alma lê trecho de um livro para Elisabeth. Fala da perda da transcendência com a qual Elisabeth concorda e Alma não. Ambas naturalmente apresentam aquela tensão de posições diferentes. Elizabeth não aceita o filho e recusa o amor do marido. Vê o mundo como hipócrita e se recusa a seguir interpretando um papel no qual ela nāo acredita. Ela para de falar para não precisar mais mentir. Alma planeja sua vida dentro dos padrões naturais, mas se questiona por uma aventura sexual que resultou num aborto. Ela não confia em si mesma e se atormenta com isso. Ambas representam a natureza humana flutuando entre as duas dimensões verticais e tensionais. Apesar da diferença de posição e intelecto das duas mulheres elas obviamente apresentam a mesma natureza.

Elisabeth estuda o comportamento de Alma. Parece querer desfazer a postura da moça diante da sociedade e se encanta com a história da orgia na praia. Elisabeth provoca os instintos inferiores de Alma, querendo romper com o que ela acredita ser uma postura falsa e hipócrita da moça. Alma resiste mas as vezes não consegue, como no episódio do caco de vidro. Ao final Alma percebe o jogo da atriz e elas se separam. 

Entremeando a narrativa há várias cenas simbólicas que refletem o que está acontecendo. Assim são, por exemplo, as seguintes situações: a cena noturna das duas (Elisabeth estuda Alma e revela a intenção de torná-las parecidas), encontro de Alma com o marido de Elizabeth (Elizabeth deveria ter um comportamento de Alma para encarar aquela relação), Elisabeth suga o sangue de Alma e esta a esbofeteia (a atriz de aproveita da enfermeira mas esta reage), simbiose dos dois rostos demonstrando a mesma natureza de ambas, a criança acariciando o rosto desfocado das duas mulheres (elo comum entre ambas por trás de suas máscaras: o filho rejeitado de Elisabeth e o abortado de Alma), e Alma e uma prostrada Elisabeth repetindo a palavra "nada" (Alma liberta-se da influência da atriz).

Mas o que Bergman quer nos dizer com tudo isso? Persona significa máscara. A máscara que usaríamos para representar socialmente. Para Elisabeth as convenções sociais apenas escondem nossa real natureza, que seria tendendo a matéria. Assim o ser humano seria representado por Pietchórin, personagem de O Herói do Nosso Tempo de Mihkail Liermetov, livro que a criança aparece lendo no início do filme: um ser egoísta, preocupado com seus prazeres e sem nenhuma preocupação com o próximo. Mas Alma (seria seu nome apenas uma coincidência?) escapa da queda e mantém sua condição humana enquanto a decaída Elisabeth afoga-se no "nada". Pois esta tensão entre transcendência e matéria é própria da nossa natureza. Nosso ser flutua entre ambos polos, e apenas decaímos quando perdemos de perspectiva o polo superior e transcendente. Viver no polo inferior é uma condição sub-humana, animalesca. Nossa arete, aquilo que nos diferencia e especifica como seres humanos, é a busca daquela transcendência e o controle dos nossos desejos ilegítimos. A resistência de (ou da?) Alma é inerente ao ser humano.

8 de janeiro de 2014

A Grande Beleza (Vazia)


Não há dúvida de que A Grande Beleza é bem feito: as atuações são convincentes, o roteiro e edição têm ritmo e as cenas imprimem o estilo onírico felliniano. Alguns momentos são impagáveis, como a entrevista da artista performática que não suporta ver suas frases ocas de sentido serem questionadas, a cena em que Jep cruelmente desmascara sua amiga escritora politicamente engajada, ou ainda o amigo boçal e depravado, pai da stripper, que questiona a perda de sofisticação no mundo. Mas o conteúdo, a mensagem do filme, pareceu-me rasteira.

A narrativa é simples. Ao completar 65 anos Jep vê a perspectiva da morte mais próxima e faz um balanço da sua vida. Solteiro, sem filhos, vaidoso, rico, cínico e mundano, ele encontra-se num vazio espiritual e busca um sentido para sua existência. Esta procura nos é apresentada em uma sucessão de cenas que resumem sua visão de mundo (e provavelmente a do cineasta). E como ele vê a vida?

Parece que Sorrentino não foi aos anos 50 e 60 para buscar apenas uma estética cinematográfica, mas também de lá voltou com a tola filosofia existencialista. É-nos apresentada a ideia de absurdidade da vida, de uma existência sem sentido. Isto fica claro na forma como as quatro castas, representando a totalidade da humanidade, são retratadas. Os brâmanes no filme, sejam os religiosos ou intelectuais, responsáveis por nosso guiamento espiritual, moral e intelectual, refletem os aspectos da quarta casta (sudras) para a qual o que interessa é a satisfação das necessidades vitais imediatas. São os intelectuais voltados para sexo e drogas, o futuro papa que só pensa em culinária, e o ritual ecumênico de prostração diante da falsa santa de discurso materialista. A segunda casta (xátrias - aristocracia e políticos), responsáveis pela defesa e organização das demais castas, está morta. Ela é representada pelo casal de aristocratas humilhados que vive de vender sua aparição em eventos sociais. E os vaixás (terceira casta - empresários e altos executivos), que organizam a atividade econômica, dando de comer as outras castas, são representados pelo vizinho arrogante, corrupto e encarcerado. Perdeu-se a hierarquia entre as castas e vivemos no mundo material dos sudras. Em suma, é a total decadência do discernimento que eleva ao Logos em prol da vontade, da ignorância, que se entrega à pura existência.

Neste cenário de degradação Jep parece procurar algum consolo nas reminiscências da juventude ou numa possível existência mais simples. Vemos isso na lembrança do relacionamento com Elisa, na homenagem a Fanny Ardant, na ode a nostalgia do amigo teatrólogo, na referência da falsa santa sobre a importância das raízes, na apreciação do estilo de vida e relaciomento do viúvo de Elisa com a namorada, e no fugaz relacionamento platônico de Jep com a stripper aidética. Mas isso é tudo autoengano. O elã da juventude é passageiro e o vórtex do devir a tudo engolirá. Ele nunca encontrará a "grande beleza", nunca entenderá o sentido da vida. No máximo experimentará alguns fugidios momentos de beleza estética e mais nada. Afinal, como declarado na epígrafe e repetido ao final, é tudo uma grande ilusão. 

Mas assim é o mundo dos existencialistas - estes sujeitos que matam os pais e depois pedem clemência por serem órfãos. Desconsiderar a transcendência, ignorar ou não aceitar a insolubilidade dos grandes mistérios, reduz a própria essência humana. Nós flutuamos entre um firmamento de luzes da transcendência e um abismo de trevas da matéria - fomos criados a imagem de Deus mas feitos de barro. 

A cena do artista que fotografa a si mesmo é emblemática. É a aplicação do processo de perda de transcendência nas artes. É a involução de um Giotto a um Piero Manzoni. Pode haver algo mais imanente do que uma obra de arte que representa apenas a si mesmo? Aquele mosaico de fotos só perde para a Merda d’Artista. Jep ainda vislumbra que há algo de errado nisto – se refugia nas estátuas dos palácios de Roma diante do horror da menina pintora – mas não faz o paralelo com a vida.

A areté do homem, aquilo que melhor nos representa, é a consciência e a capacidade de expandir seus horizontes, o potencial de transcender a existência meramente sensorial. Jep não é capaz disto. E no final ainda posa de Cristo – é a viagem à ilha, onde recorda Elisa, colocada em paralelo com a falsa santa subindo e escada sagrada de San Giovani (a mesma que Cristo subiu para a entrevista com Pilatos). É o homem miserável sofrendo na existência vazia da qual não pode mais do que fruir da dimensão estética – uma mescla ordinária de existencialismo com esteticismo.

Particularmente não gosto de histórias do homem vitimado lambendo suas próprias feridas. Prefiro os heróis que entendem e superam o aspecto trágico da vida. Mas histórias assim estão cada vez mais raras.

16 de dezembro de 2013

Dr. Jekyll e Jasmine


Blue Jasmine, o último filme de Woody Allen, fala do pior tipo de mentira. A mentira existencial, mentir para si mesmo.  

Há vários tipos de mentira, boas e más. A mentira social, mais conhecida como mentira branca, é necessária na vida em sociedade. Para que dizer que você detestou aquele doce que sua esposa fez com tanta expectativa? O destino solitário de Alceste de O Misantropo e o drama que Greger produz em o Pato Selvagem são bons exemplos do danoso que é seguir o imperativo kantiano de dizer a verdade a qualquer custo. Outra boa mentira é aquela utilizada para proteger alguém ou produzir algo bom. Você diria aos ladrões que sua filha está escondida no sótão?  Este tipo de mentira utilitária se transforma em negativa quando perde a justificativa moral, ficando apenas o desejo de beneficiar a si mesmo em detrimento de outrem de forma ilegítima. Também há a mentira patológica. Falo do mitômano que mesmo sem ter nada a ganhar mente pelo prazer de mentir.

A mentira de Jasmine, ou melhor, Jeanette, está em outro patamar. Ela mente para si mesma inventando uma pessoa que ela não é. Tudo em sua vida é falso, mudou seu nome, ressentia-se da presença da irmã que a lembrava de sua origem, fingiu desconhecer as atividades criminosas do marido e mente na tentativa de conquistar um novo esposo. Ela tenta, e quase consegue, que sua irmã embarque no mesmo tipo de mentira, mas Sally logo tem um choque de realidade e se recupera.  

Incapaz de sustentar seu Mr. Hyde, Jeanette isola-se do mundo exterior, que lhe nega a fantasia, e mergulha em sua própria loucura, perdendo a consciência do próprio ego. Agora Jasmine só pode sobreviver em sua própria mente.

1 de outubro de 2013

Loucos de bicicleta



São seis horas da manhã de uma terça-feira e, como habitual, o tráfego de carros já é pesado na Avenida Ibirapuera em São Paulo. Mas desta vez algo mais prejudica o deslocamento de motoristas e passageiros para suas rotineiras atividades: na pista da direita um solitário ciclista dá suas pedaladas. As outrora três pistas para deslocamento de veículos motorizados, já restritas a duas pelo famigerado corredor de ônibus, transformam-se em apenas uma com a necessidade dos carros espremerem-se na faixa central para guardar segura distância do referido ciclista.

Esta cena, cada vez mais comum nas grandes cidades, esconde um malefício ainda maior do que naturalmente salta aos olhos. É óbvio que o trânsito de bicicletas não deveria ser permitido em avenidas de grande movimento, pois não só prejudica o tráfego em geral, para desconforto de seus usuários, como também põe em risco a integridade física do imprudente ciclista. Mas já há alguns anos o uso de bicicletas tem sido incentivado, senão idealizado, por governos ao redor do mundo. O que está por atrás desta política? Que buscam as autoridades com um eventual aumento do uso da bicicleta nos deslocamentos dos cidadãos urbanos?

Até onde consegui pesquisar, o incentivo a substituição do uso do automóvel pela bicicleta ganhou contornos nítidos nos corredores da Comissão Europeia, na divisão destinada aos assuntos referentes ao meio-ambiente, no final da década de 90¹. Na visão da Comissão, o caótico trânsito das grandes cidades, além de seus intrínsecos problemas, aumentaria a emissão de gases do efeito estufa, que por sua vez provocariam o aquecimento global e suas consequências apocalípticas. Além de “salvar o planeta”, o maior uso de bicicletas traria melhoras para a saúde da população (ar mais puro, exercício físico, menos ruído) e ganhos econômicos para todos (menor custo de transporte, menor desperdício de tempo no trânsito). Maravilhados com a incidência do uso e bicicletas em cidade como Basel, Cambridge, Parma ou Ferrara, aqueles engenheiros sociais imaginavam tal hábito replicado em Londres, Paris, Madri e Roma, apesar das claras diferenças populacionais, urbanísticas e de costumes existentes entre estes extremos.
Para alcançar esta Shangri-la de duas rodas os iluminados burocratas europeus identificavam problemas objetivos para o motorista transfigurar-se em ciclista: perda de velocidade no deslocamento, maiores dificuldades em cidades de topografia acidentada, exposição aos extremos climáticos e a maior exposição corporal a eventuais acidentes de trânsito. Como nenhum destes obstáculos pode ser diretamente evitado, aqueles burocratas sugeriam concentrar a campanha pró-ciclismo naquilo que chamaram fatores subjetivos, focando na imagem do futuro ciclista como um ser superior aos não aderentes ao heroico renovado transporte, um apelo irresistível aos idiotas úteis de plantão. É desolador ver o vazio espiritual e intelectual daquelas pessoas que abraçam a campanha pró-ciclismo como uma religião, acreditando que a cada pedalada estão “construindo um mundo melhor”. Naturalmente tal reengenharia social seria reforçada com pistas exclusivas, estacionamentos e novas leis favorecendo os ciclistas. Além disso, recomendavam ainda prejudicar os motoristas forçando-os a reduzir sua velocidade com, por exemplo, o estreitamento das faixas de rolamento.

Continuei pesquisando em busca de resultados concretos que tais medidas teriam trazido em algum grande centro urbano onde foram aplicadas. Mas apesar dos investimentos feitos nos principais cidades e do contingente de idiotas úteis que abraçaram o ideal proposto, não encontrei nenhum documento enumerando os resultados alcançados, seja no aumento significativo da substituição do automóvel pela bicicleta, seja na eventual consequente diminuição dos problemas de trânsito. Uma entrevista² da secretária de transporte de Nova York, Janette Sadik-Khan, em recente visita a São Paulo é reveladora. Responsável por 450 novos quilômetros de ciclovias em Nova York desde 2007, ela virou inimiga número 1 dos taxistas, mas, ostenta ela, o número de ciclistas aumentou de 10 mil para 40 mil nestes oito anos. É isso mesmo! Ela quer demonstrar o sucesso da política pró-ciclismo com este adicional de 30 mil ciclistas numa cidade de mais de 8.3 milhões de habitantes enquanto, para sua satisfação, irritou 50 mil taxistas que transportam 1.5 milhões de passageiros por dia³, mandando para o espaço todo o senso de proporções em prol de suas fantasias. Tal ausência de resultados palpáveis não deveria surpreender qualquer observador mais atento. Porém, apesar do falacioso pretexto de combater o aquecimento global e da ausência de resultados das medidas sugeridas e implementadas já há mais de quinze anos, vemos um recrudescimento no antagonismo ao uso de carros e aumento na retórica governamental sobre a necessidade de reforçar a campanha pró-ciclismo. Fazendo com que voltemos à pergunta original: o que buscam com isso?

Não há absolutamente nada de errado na municipalidade legislar e executar medidas visando melhorar o transporte e a saúde dos cidadãos, pois tal conduta é esperada pelo eleitor. Mas as políticas que estamos enfrentando vão de encontro a tais benefícios. A melhoria do transporte nos já problemáticos centros urbanos não será alcançada desta forma. Ela só será viável com a melhoria dos transportes públicos, principalmente o metroviário, a expansão da rede de vias de rolamento, a criação de mais locais de estacionamento (subterrâneos e edifícios), e, num aspecto mais amplo, a criação de mais centros de trabalho que propiciem, não apenas, a possibilidade de morar mais próximo ao local de trabalho, mas que também estimulem a migração dos grandes centros urbanos para cidades menos densamente povoadas. Mas pouco ou nada disto é feito. Em São Paulo, o metrô é mais palco de disputa política do que foco na solução do problema de transporte, e, afrontando a lógica, querem que o transporte público fique cada vez mais nas mãos do governo, notoriamente o pior administrador possível. E o investimento em novas avenidas ou estacionamentos, entendido como estímulo ao uso do odiado automóvel, é praticamente nulo.

Também sou favorável ao uso de bicicletas, desde que não prejudique o trânsito e nem exponha o ciclista a riscos desnecessários. Para isso dever-se-ia sim implementar faixas exclusivas, mas sempre que adicionais as faixas de rolamento automotivo e não em prejuízo destas, e, idealmente, separadas por alguma estrutura fixa, mesmo que apenas um meio-fio. A circulação de bicicletas deveria ser restrita a estas faixas exclusivas e as ruas de movimento regular, ou seja, proibida em avenidas e outras vias principais de acesso. Proibição antes imperativa mundo afora até o início desta paranoia ciclista.

Mas nada disto acontece. O projeto pró-ciclista segue em pauta apesar do contraste evidente entre suas medidas e os objetivos propalados. Menos que o incentivo ao uso da bicicleta assistimos, isso sim, a um antagonismo ao uso do automóvel sem que nenhuma boa alternativa de transporte seja oferecida ao usuário. Sinceramente, é difícil precisar qual a agenda de nossos políticos aqui. Mas a resposta flutua entre mais um devaneio esquerdista destes psicopatas ou, ainda pior, algo ainda mais totalitário que vise restringir a mobilidade de suas vítimas. O futuro nos dirá. 

Nota¹ - Cycling: the way ahead for towns and cities – European Communities (1999)
Nota² - Bike em SP deve ter segurança, diz secretária de NY – O Estado de São Paulo (26/09/2013)
Nota³ - Dados do NYC Taxi & Limousine Commission (2012)


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